Conto de 4 Nomes (Parte 3)


Não acreditava que teria coragem de largar tudo pra ir atrás de Antônio. Antônio parecia concordar com os planos dela. Vez ou outra jogava indiretas, fazia propostas a vidas de alegria, de sonhos, e de sorrisos infinitos. Mas Clarisse vinha percebendo que Antônio estava diferente. Parecia apreensivo, nervoso, sem saber o que fazer diante de uma situação conflituosa. Ela perguntava o que estava acontecendo, mas a resposta era sempre a mesma:
- Nada, minha linda. Coisas do trabalho, relaxe. E pra completar tem essa tese de mestrado pra extravasar minha paciência. Não se preocupe. Quero te dizer uma coisa, minha Cissa, escute bem. Independente do que aconteça, saiba que eu adoro você e que você é tudo o que eu sempre quis. - Antônio falava parecendo prever alguma tragédia grega, e assustando a boba da Clarisse.
- Ai, Antônio, que horror! Quer me matar, porra? Para com isso. Até parece que vai se matar ou algo do tipo.. As coisas ficarão melhores, acredite. Brevemente estaremos bem. - ela tentava acalmar o seu ‘pseudo- namorado’.
Agora, estava ela na sala de embarque do aeroporto. Não tinha mais volta. Naquele chão que ajoelhou, ela queria rezar até o fim do último terço. Havia mandado um email para Antônio o avisando que estava cometendo a maior loucura de sua vida. Ele não tinha respondido, ainda. Toda a ansiedade do mundo inundava seu ser. – Por que cacete você perdeu seu celular justamente agora, Antônio? -  Clarisse se desesperava em pensar.
Entrou no avião. Não conseguia identificar o que sentia. Só sabia que suas mãos suavam, suas pernas tremiam, seu coração disparara, e sua mente estava em colapso. Ao mesmo tempo em que a ansiedade varria seu controle, Clarisse pensava no que seus pais fariam para trazê-la de volta. Em cerca de alguns dias eles descobririam a ‘fuga’. Sentiu remorso. Apesar dos desentendimentos, incompreensões múltiplas, e dos exageros, seus pais eram as pessoas que mais se importavam com ela. Do jeito confuso deles, mas preocupavam-se.
Antônio apareceu em sua cabeça. Ficou. A partir dali a viagem seria exclusiva dele em seu juízo. Quantos momentos felizes a aguardavam? Já idealizava o abraço que ganharia e espremeria seus órgãos internos, os beijos que sufocariam qualquer arrependimento de ter feito tudo aquilo por aquele moço sereno e lindo. Receios também apareciam. – E se ele não estiver me esperando? E se ele for casado e pai de 3 filhos? E se ele não existir como existe pra mim? E se..? E se...? – CHEGA! Esses pensamentos estavam devastando-a por dentro. Clarisse conhecia na prática o poder do otimismo e da sorte. Sempre se considerou a sorte materializada em carne, osso, sentimento, e tropeções no meio da rua. Mas o medo de que não pudesse ter Antônio de uma vez por todas agora parecia ser maior do que qualquer pensamento positivo. Devaneios tontos cercaram e acamparam em sua cabeça e fizeram até fogueira. O combustível era a ansiedade de que aquela droga de avião pousasse rápido, já, AGORA. 

(Continua...)
Silvana Sabino

Conto de 4 nomes (Parte 2)

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Ao chegar em casa, Clarisse ainda guardava o gosto do beijo daquele rapaz alto que ao se despedir pediu telefone, endereço, RG, e CPF (claro que tudo isso foi charme pra deixar a morena sem graça). O telefone tocou. Número desconhecido. Coração dançando axé de tanta adrenalina. Ela atende:
- Oi? Quem é? - pergunta mesmo o coração gritando pra ela quem seria do outro lado da linha..
- Se adivinhar, eu vou aí te buscar e nós fugimos agora mesmo pra Índia. - respondeu o moço com o pensamento calculando se a distância entre Teresina e Recife é tão grande assim..
A conversa prosseguiu, assim como tantas outras. Eram horas e horas de sorrisos e palavras doces pelo telefone. Nos primeiros dois anos, Clarisse tinha Antônio como alguém que, apesar de ser tudo o que ela queria, estava longe demais para criar laços mais profundos. Ele já era o seu porto seguro, sua palavra certa, seu carinho garantido. Porém Clarice sentiu a necessidade de uma fase que queria viver. Envolveu-se com outros tantos caras. Até ensaiou um relacionamento com um que havia conhecido por acaso em uma noite, mas ele não era doce como Antônio e parecia só querer comê-la. No fundo, Clarice sentia-se um pouco culpada por se deixar encantar por outros homens que surgiam. Só que ao imaginar que Antônio possivelmente estaria fazendo o mesmo, ela sossegava. Aliás, era nesse momento que ela sentia um aperto dentro de si. E se Antônio se apaixonasse pra valer por outra garota? E se eles não mais se vissem? Se deixassem de se falar? Não, ela não queria perder o contato com ele. Mesmo que os dois não mantivessem um relacionamento, mesmo sabendo que enquanto a distância estivesse presente eles estariam ausentes, mesmo com qualquer justificativa plausível que a fizesse cair na real, ela não queria que Antônio saísse de sua vida.
O tempo passou e eles continuaram se encontrando 3 vezes por ano, nos encontros regionais e nacionais de História, e em um fim de semana que Antônio vinha vê-la. Cissa não trabalhava e nem tinha grana pra ir até o Piauí tomar da cajuína de Antônio. Além disso, ele insistia para que ela não precisasse se deslocar tão longe só para vê-lo...
Eles ficaram mais próximos. Falavam-se diariamente. Pareciam que se conheciam há décadas, que eram casados e estavam separados por uma viagem curta.
Assim que se formou, Clarisse não agüentava mais ficar tão longe de Antônio. Precisava dar um jeito de ficar com ele. Ficar de verdade, sabe? Ficar todo dia e toda noite. Ideias começaram a fervilhar em sua cabeça. - ‘E se eu...’- ela pensava. Não, era absurdo demais. Não acreditava que seria capaz de chegar a esse ponto.

(Continua...)
Silvana Sabino

Conto de 4 Nomes

Clarisse estava radiante! O dia chegou, e QUE DIA! O céu trouxe para a festa um azul que nunca tinha sido visto, as nuvens pareciam dançar lentamente a mais bela canção que tocava silenciosamente e só quem tivesse asas era capaz de ouvi-la. Às 19:00, Clarisse embarcaria para Teresina e seria a pessoa mais feliz do mundo ao fim da noite quando desembarcasse daquele avião que não apenas a transportava, mas levava também toda a sua futura nova vida. Até chegar ali tinha sido difícil. Não foi nem um pouco fácil abrir mão de emprego, apê com amigas, e toda uma vida em Recife. Por muitas vezes ela questionou-se se era realmente isso que queria de agora em diante pra si. Afinal, apesar de conhecer Antônio há 5 anos, eles só se viam nos congressos de estudantes de História, e raras vezes quando o orçamento permitia. Mas, mesmo com todas as adversidades como distância e carência, eles desenvolveram um sentimento muito forte um pelo outro. Era como se eles esperassem apenas o momento que poderiam viver toda essa imensidão de desejos que guardavam dentro de si. Clarisse sorria de si mesma já prevendo o que seus pais diriam quando descobrissem o que a ‘sua garotinha’ foi capaz de fazer por um amor que chegou do nada e queimou intensamente.
- Onde essa menina está com a cabeça, meu Deus? No cu? - diria o seu pai, sempre tãão compreensivo...
- Eu disse que ela não deveria morar sozinha com aquelas más-influências, Roberto. Eu sabia que a porralouca da Cissa não tinha maturidade suficiente pra ser dona da sua vida. Nós nunca deveríamos ter soltado tanto ela. Eu sempre te avisei. -falava Dona Lúcia entre choros e ataques de fúria, e se arrependendo até de ter deixado sua Cissa ir comprar absorvente sozinha no mercado.
O restante do diálogo Clarisse já imaginava, entretanto não queria perder tempo pensando nos surtos de seus pais. Toda a sua energia estava concentrada em Antônio. Ah Antônio, aquele moço bonito ruivo que todas as meninas olhavam até cair a vista quando ele passava. Não era gordo, nem magro. Clarisse costumava falar que ele era na medida certa para que os dois tivessem filhos lindos. Antônio havia terminado a faculdade no mesmo período que Clarisse. Estava trabalhando em uma escola bem conceituada no Piauí, e já tinha o mestrado encaminhado. Em seus telefonemas para Clarisse, ele fazia questão de reforçar que logo logo os dois torrariam todo aquele ainda pouco dinheiro que ele vinha guardando para quando se encontrassem. Clarisse sorria. Não acreditava na sua sorte. Como poderia ela, uma garota tida como mediana no quesito beleza, sem jeito, e azarada, encontrar um cara como Antônio? Até as próximas vidas ela seria grata à sua amiga Taciana por tê-lo apresentado naquela última cultural do primeiro ENEH (encontro nacional de estudantes de História), ocorrido em Salvador, que Clarisse foi. Ela ainda estava no primeiro período. O único objetivo para ter ido àquele congresso era a idéia de sair de casa e fazer a sua primeira viagem só, sem seus pais e suas noias. Nunca imaginaria que aquele último dia de encontro mudaria a sua vida. Até porque, tanto ela quanto Antônio só tinham 17 anos (ela Pisciana. Ele, Canceriano. Ou seja, o universo os consagrou como casal 20). Jamais imaginariam que não seria apenas uma ficada, uns amassos, ou uma curtida de momento. As coisas foram além.

(Continua...)


Silvana Sabino