Conto de 4 Nomes

Clarisse estava radiante! O dia chegou, e QUE DIA! O céu trouxe para a festa um azul que nunca tinha sido visto, as nuvens pareciam dançar lentamente a mais bela canção que tocava silenciosamente e só quem tivesse asas era capaz de ouvi-la. Às 19:00, Clarisse embarcaria para Teresina e seria a pessoa mais feliz do mundo ao fim da noite quando desembarcasse daquele avião que não apenas a transportava, mas levava também toda a sua futura nova vida. Até chegar ali tinha sido difícil. Não foi nem um pouco fácil abrir mão de emprego, apê com amigas, e toda uma vida em Recife. Por muitas vezes ela questionou-se se era realmente isso que queria de agora em diante pra si. Afinal, apesar de conhecer Antônio há 5 anos, eles só se viam nos congressos de estudantes de História, e raras vezes quando o orçamento permitia. Mas, mesmo com todas as adversidades como distância e carência, eles desenvolveram um sentimento muito forte um pelo outro. Era como se eles esperassem apenas o momento que poderiam viver toda essa imensidão de desejos que guardavam dentro de si. Clarisse sorria de si mesma já prevendo o que seus pais diriam quando descobrissem o que a ‘sua garotinha’ foi capaz de fazer por um amor que chegou do nada e queimou intensamente.
- Onde essa menina está com a cabeça, meu Deus? No cu? - diria o seu pai, sempre tãão compreensivo...
- Eu disse que ela não deveria morar sozinha com aquelas más-influências, Roberto. Eu sabia que a porralouca da Cissa não tinha maturidade suficiente pra ser dona da sua vida. Nós nunca deveríamos ter soltado tanto ela. Eu sempre te avisei. -falava Dona Lúcia entre choros e ataques de fúria, e se arrependendo até de ter deixado sua Cissa ir comprar absorvente sozinha no mercado.
O restante do diálogo Clarisse já imaginava, entretanto não queria perder tempo pensando nos surtos de seus pais. Toda a sua energia estava concentrada em Antônio. Ah Antônio, aquele moço bonito ruivo que todas as meninas olhavam até cair a vista quando ele passava. Não era gordo, nem magro. Clarisse costumava falar que ele era na medida certa para que os dois tivessem filhos lindos. Antônio havia terminado a faculdade no mesmo período que Clarisse. Estava trabalhando em uma escola bem conceituada no Piauí, e já tinha o mestrado encaminhado. Em seus telefonemas para Clarisse, ele fazia questão de reforçar que logo logo os dois torrariam todo aquele ainda pouco dinheiro que ele vinha guardando para quando se encontrassem. Clarisse sorria. Não acreditava na sua sorte. Como poderia ela, uma garota tida como mediana no quesito beleza, sem jeito, e azarada, encontrar um cara como Antônio? Até as próximas vidas ela seria grata à sua amiga Taciana por tê-lo apresentado naquela última cultural do primeiro ENEH (encontro nacional de estudantes de História), ocorrido em Salvador, que Clarisse foi. Ela ainda estava no primeiro período. O único objetivo para ter ido àquele congresso era a idéia de sair de casa e fazer a sua primeira viagem só, sem seus pais e suas noias. Nunca imaginaria que aquele último dia de encontro mudaria a sua vida. Até porque, tanto ela quanto Antônio só tinham 17 anos (ela Pisciana. Ele, Canceriano. Ou seja, o universo os consagrou como casal 20). Jamais imaginariam que não seria apenas uma ficada, uns amassos, ou uma curtida de momento. As coisas foram além.

(Continua...)


Silvana Sabino

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