Formidável Aniversário


Era meu aniversário de 17 anos. Ainda não era adulta, nem criança, nem coisa alguma. Era só uma adolescente. Eis o meu dilema existencial. Para meus pais eu continuava sendo aquela pirralha barulhenta cheia de sardas que ganhava o mundo toda vez que tomava um banho de chuva no quintal. Isso por mais que eu tenha crescido e minhas sardas partido. Minhas amigas costumavam me achar madura demais pra elas só porque eu não via sentido em ficar chorando por garotos e novelas. Quando o carinha que eu estivesse afim me dava um fora, ou pegava outra menina na mesa ao lado, eu simplesmente balançava o cabelo, arrumava o fone de ouvido e dava um sorriso. Nem era deboche ou fingimento. Mas achava ridículo eu, uma garota que ainda jogava Super Mário, chorar por um idiota que estava nem aí pra mim. Meus casos de amor eram como sorvetes. Eu sorria, me lambuzava e ficava feliz enquanto seu sabor permanecesse doce na minha boca. Porém quando eu sentia que o sabor estava mudando e o sorvete derretido demais, não fazia nem questão de jogá-lo fora e aproveitar a casquinha. Era essa a minha concepção de amor: ser feliz com o outro enquanto este outro assim quisesse. Mas o  que minhas amigas não sabiam, enganadas, era o quão boba eu era. Ficava deitada na cama fazendo quadrinhos de heroínas que combatiam com sucos e cachos de flores.

Eu não quis festão. Queria mesmo era viajar. Não viajar como eu costumava viajar para a fazenda do meu avô ou a casa de praia do meu tio Marcelo. Mas uma viagem de verdade. Sozinha. Livre. Feliz. Sem a preocupação de regular meus palavrões pra não assustar meu avô ou de ter que tomar conta do meu irmão. Queria colocar a mochila nas costas, soltar meu cabelo mega cacheado, e sair sem rumo e destino pelas cidades que eu escolhesse. OK.. Jamais meu pai permitiria uma coisa dessas. O máximo que eu consegui foram quatro dias em Fortaleza com toda a minha rotina programada. Fiquei puta. Era o MEU aniversário! Era a MINHA oportunidade de concretizar o MEU sonho de sentir a brisa onde EU quisesse. Mas eu ainda tinha 17 anos e um pai receoso e ciumento pra encarar.
O que eu jamais poderia imaginar era o que eu viveria dali a duas semanas em Fortaleza. QUEM eu iria encontrar. E o quanto eu agradeceria à noia do meu pai até o fim da minha vida por ter me mandado naqueles dias justamente para aquele lugar..

Continua...
Silvana Sabino

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